quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Flor, o amor e a coragem



Flor, a nossa cadelinha, entrava em pânico todas as vezes em que eu chegava do trabalho, à noite, e abria o portão da garagem. Em minha imaginação, o carro preto de faróis acesos devia ser a imagem mais pavorosa já vista em toda a sua existência: um grande monstro de olhos de fogo. Para reforçar esse medo (tentando protege-la, assim, de um futuro possível acidente) passei a piscar muito os faróis antes de descer do carro. Isso funcionou. Por um tempo. E foi deixando de funcionar quando Florzinha decidiu brigar contra o seu medo pra chegar mais rápido no nosso abraço de final de dia. No começo, ela vinha apavorada. Mas vinha. Com o tempo – e eu pude ver pelo pára-brisa do nosso carro – ela passou a encarar o monstro de lata, borracha e luz com toda a coragem da sua alma. E foi tanta coragem, que ela conseguiu. Hoje, não posso mais deixar de descer do carro e correr pro nosso abraço antes mesmo de entrar com o carro. Assim que o portão se abre, ela corre em minha direção e o grande monstro tem que ceder. Assim, de luzinha fraca, humilhado e - o mais importante - fora da nossa casa, ele se abre e me liberta da sua cápsula de ferro. Florzinha, vitoriosa, comemora com lambidas e carinhos nossos. Quando acha que deve, se afasta um pouco e deixa que o monstro, diariamente derrotado, entre pra descansar.
PS: e assim, todos os dias a nossa cadela me faz lembrar um clichê. Esse de que o amor vence o medo. Por maior que ele seja. E que "isso é bom que mete medo. E se mete medo é bom. Isso é bom barbaridade".

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