
Numa manhã de domingo em que faria diária extra, Néia chegou em nossa casa entre indignada e divertida: o marido havia virado irmão. Explico: na noite anterior, depois de muita cachaça, o pinguço (que esta não é a primeira história dele...) encontrou um pastor evangélico. Sabe-se que esses pastores - conseguindo conjugar os verbos melhor do que muita gente do mundo – acabam convencendo das maiores loucuras sendo que, com o cabra (ou a ovelha) já vulnerável da bebida na mente, tudo fica ainda mais fácil. Pois foi o que houve. Conta Néia que, no meio da madruga, o marido chegou acompanhado do enviado de Deus. Mesmo àquelas horas, pegou todos os CDs da casa (incluindo um do falecido Michael Jackson) e entregou à autoridade religiosa comprometida em dar um fim àquelas coisas de gente do mundo. Antes de o pastor se despedir, Néia ainda ouviu o marido combinar um culto para as 16h ali mesmo na casa deles. No domingo, foi a nossa vez: depois do mercado – e de um fabuloso dourado na brasa – eu e Néia, já com algumas latinhas na cabeça, resolvemos comparecer ao culto delivery. Com a desculpa de levar um bolo para as crianças (e da impossibilidade de Néia fazer o transporte sozinha, de bike), entramos no carro e seguimos. Já na esquina da ruazinha de terra, ouvimos a microfonia. As risadas viraram gargalhadas quando pudemos visualizar o pinguço convertido, vestido a caráter (mangas compridas, calça e sapato social), sentado numa cadeira, na porta de casa, cercado pelos três filhos, com a maior cara de ressaca do mundo. Ele e os meninos eram todo o público do pastor que, amplificado por uma caixa de som, conduzia um legítimo culto da igreja Jesus é Surdo. Nos intervalos da pregação, uma moça entoava cânticos e ouvir aquilo era uma amostra grátis da terrível experiência do inferno. Depois de três minutos de observação, Néia entrou com o bolo prometendo voltar rapidamente. Eu fumava um cigarrinho quando o pastor se aproximou (era a vez da moça mixar grunidos e microfonia) oferecendo préstimos imediatamente recusados por esta filha de Oxossi. Néia voltou e - numa prova irrefutável de que o instinto materno é sábio – me pediu pra levar os filhos lá pra casa por umas duas horas. Que os meninos não tem culpa da cachaça que o pai tomou.

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