quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Recentemente, pegamos estrada. Saímos de Porto Velho, dormimos em Rio Branco e chegamos à Bolívia. Viajar por essa estrada, deveria ser viajar acompanhado pelas árvores imensas da Amazônia. Acontece que, na maior parte da viagem, foi essa a paisagem da janela. Fora as pilhas de árvores cortadas e as incontáveis cabeças de gado. A pessoa volta meio puta da vida.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Flor, o amor e a coragem



Flor, a nossa cadelinha, entrava em pânico todas as vezes em que eu chegava do trabalho, à noite, e abria o portão da garagem. Em minha imaginação, o carro preto de faróis acesos devia ser a imagem mais pavorosa já vista em toda a sua existência: um grande monstro de olhos de fogo. Para reforçar esse medo (tentando protege-la, assim, de um futuro possível acidente) passei a piscar muito os faróis antes de descer do carro. Isso funcionou. Por um tempo. E foi deixando de funcionar quando Florzinha decidiu brigar contra o seu medo pra chegar mais rápido no nosso abraço de final de dia. No começo, ela vinha apavorada. Mas vinha. Com o tempo – e eu pude ver pelo pára-brisa do nosso carro – ela passou a encarar o monstro de lata, borracha e luz com toda a coragem da sua alma. E foi tanta coragem, que ela conseguiu. Hoje, não posso mais deixar de descer do carro e correr pro nosso abraço antes mesmo de entrar com o carro. Assim que o portão se abre, ela corre em minha direção e o grande monstro tem que ceder. Assim, de luzinha fraca, humilhado e - o mais importante - fora da nossa casa, ele se abre e me liberta da sua cápsula de ferro. Florzinha, vitoriosa, comemora com lambidas e carinhos nossos. Quando acha que deve, se afasta um pouco e deixa que o monstro, diariamente derrotado, entre pra descansar.
PS: e assim, todos os dias a nossa cadela me faz lembrar um clichê. Esse de que o amor vence o medo. Por maior que ele seja. E que "isso é bom que mete medo. E se mete medo é bom. Isso é bom barbaridade".

Fé de bêbo não tem dono





Numa manhã de domingo em que faria diária extra, Néia chegou em nossa casa entre indignada e divertida: o marido havia virado irmão. Explico: na noite anterior, depois de muita cachaça, o pinguço (que esta não é a primeira história dele...) encontrou um pastor evangélico. Sabe-se que esses pastores - conseguindo conjugar os verbos melhor do que muita gente do mundo – acabam convencendo das maiores loucuras sendo que, com o cabra (ou a ovelha) já vulnerável da bebida na mente, tudo fica ainda mais fácil. Pois foi o que houve. Conta Néia que, no meio da madruga, o marido chegou acompanhado do enviado de Deus. Mesmo àquelas horas, pegou todos os CDs da casa (incluindo um do falecido Michael Jackson) e entregou à autoridade religiosa comprometida em dar um fim àquelas coisas de gente do mundo. Antes de o pastor se despedir, Néia ainda ouviu o marido combinar um culto para as 16h ali mesmo na casa deles. No domingo, foi a nossa vez: depois do mercado – e de um fabuloso dourado na brasa – eu e Néia, já com algumas latinhas na cabeça, resolvemos comparecer ao culto delivery. Com a desculpa de levar um bolo para as crianças (e da impossibilidade de Néia fazer o transporte sozinha, de bike), entramos no carro e seguimos. Já na esquina da ruazinha de terra, ouvimos a microfonia. As risadas viraram gargalhadas quando pudemos visualizar o pinguço convertido, vestido a caráter (mangas compridas, calça e sapato social), sentado numa cadeira, na porta de casa, cercado pelos três filhos, com a maior cara de ressaca do mundo. Ele e os meninos eram todo o público do pastor que, amplificado por uma caixa de som, conduzia um legítimo culto da igreja Jesus é Surdo. Nos intervalos da pregação, uma moça entoava cânticos e ouvir aquilo era uma amostra grátis da terrível experiência do inferno. Depois de três minutos de observação, Néia entrou com o bolo prometendo voltar rapidamente. Eu fumava um cigarrinho quando o pastor se aproximou (era a vez da moça mixar grunidos e microfonia) oferecendo préstimos imediatamente recusados por esta filha de Oxossi. Néia voltou e - numa prova irrefutável de que o instinto materno é sábio – me pediu pra levar os filhos lá pra casa por umas duas horas. Que os meninos não tem culpa da cachaça que o pai tomou.